quinta-feira, agosto 31, 2006

Líder: Bento Gonçalves da Silva

Guerreiro durante a maior parte de sua vida, Bento Gonçalves da Silva morreu na cama. Maçom e defensor de idéias liberais, pelas quais lutou durante os quase dez anos da Revolução Farroupilha, viu, ao final de seu esforço, a vitória do poder central. Presidente da uma república, viveu a maior parte de sua vida em um Império.
Bento Gonçalves da Silva nasceu em Triunfo, em 1788, filho de alferes. Cedo, porém, saiu de sua terra. Em 1812 foi para Serro Largo, na Banda Oriental (Uruguai), onde se estabeleceu com uma casa de negócios. Dois anos depois estava casado, com Caetana Joana Francisca Garcia. Algumas versões afirmam que, em 1811, antes de se fixar na Banda Oriental, participou do exército pacificador de D. Diego de Souza, que atuou naquela região. Essa informação, entretanto, é discutida.
Mas, se não foi em 1811, em 1818 com certeza começou a sua atuação militar, quando participou da campanha do Uruguai (que culminaria com a anexação formal daquele país ao Brasil, em 1821, como Província Cisplatina). Aos poucos, devido à sua habilidade militar, ascendeu de posto, chegando a coronel em 1828, quando foi nomeado comandante do Quarto Regimento de Cavalaria de 1a. linha, estabelecido em Jaguarão. Passou a exercer também os postos de comandante da fronteira e da Guarda Nacional naquela região.Provavelmente já era maçom nessa época, pois consta que organizou várias lojas maçônicas em cidades da fronteira. É certo, contudo, que sua influência política já era grande, pois o posto de comandante da Guarda Nacional era um cargo eminentemente político.
Em 1832 Bento foi indicado para um dos postos de maior influência que havia na província, o de comandante da Guarda Nacional do Rio Grande do Sul. Isto lhe dava uma posição estratégica, que soube utilizar quando da Revolução Farroupilha: sob seu comando estavam todos os corpos da Guarda Nacional, força especial que havia sido criada em 1832 e cujo oficialato era sempre composto por membros das elites de cada região.
Esse cargo de confiança, entretanto, não impediu que Bento continuasse dando apoio aos seus amigos uruguaios. Foi por isto que, em 1833, foi denunciado como desobediente e protetor do caudilho uruguaio Lavalleja, pelo mesmo homem que o havia indicado para o posto de comandante da Guarda Nacional, o marechal Sebastião Barreto Pereira Pinto, comandante de Armas da Província.
Chamado ao Rio de Janeiro para se explicar, Bento saiu vitorioso do episódio: não voltou para a província como comandante de fronteira, mas conseguiu do regente padre Feijó - que também defendia idéias liberais - a nomeação do novo presidente da Província, Antonio Rodrigues Fernandes Braga, o mesmo homem que iria derrubar, em 1835, quando deu início à Revolução.
De volta ao Rio Grande, continuou a defender suas idéias liberais, à medida que se afastava de Braga, denunciado pelos farrapos como prepotente e arbitrário. Eleito para a primeira Assembléia Legislativa da província, que se instalou em abril de 1835, foi apontado, logo na fala de abertura, como um dos deputados que planejava um golpe separatista, que pretendia desligar o Rio Grande do Brasil.A partir desse momento, a situação política na província se deteriorou. As acusações mútuas entre liberais e conservadores eram feitas pelos jornais, as sessões da Assembléia eram tumultuadas. Enquanto isto, Bento Gonçalves articulava o golpe que teve lugar no dia 19 de setembro.
No dia 21, Bento Gonçalves entrou em Porto Alegre. Permaneceu na cidade por pouco tempo, deixando-a para comandar as tropas revolucionárias em operação na província. Exerceu esse comando até dois de outubro de 1836, quando foi preso no combate da ilha do Fanfa (em Triunfo), junto com outros líderes farrapos. Foi então enviado para a prisão de Santa Cruz e mais tarde para a fortaleza de Lage, no Rio de Janeiro, onde chegou a tentar uma fuga, da qual desistiu porque seu companheiro de cela, o também farrapo Pedro Boticário, era muito gordo, e não conseguiu passar pela janela. Transferiram-no então para o forte do Mar, em Salvador. Mesmo preso, sua influência no movimento farroupilha continuou, pois foi eleito presidente da República Rio-Grandense em 6 de novembro de 1836.Mas, além do apoio farroupilha, Bento contava com o da Maçonaria, de que fazia parte. Essa organização iria lhe facilitar a fuga da prisão, em setembro de 1837.
Fingindo que ia tomar um banho de mar, Bento começou a nadar em frente ao forte até que, aproveitando um descuido de seus guardas, fugiu - a nado - em direção a um barco que estava à sua espera.Em novembro ele regressou ao Rio Grande, tendo chegado a Piratini, a então capital farroupilha, em dezembro, quando tomou posse do cargo para o qual havia sido eleito. Imediatamente, passou a presidência ao seu vice, José Mariano de Mattos, para poder comandar o exército farroupilha.A partir de então, sua vida seriam os combates e campanhas, embora se mantivesse como presidente. Em 1843, entretanto, resolveu renunciar ao cargo, desgostoso com as divergências que começavam a surgir entre os farrapos. Passou a presidência a José Gomes de Vasconcelos Jardim, e o comando do exército a David Canabarro, assumindo apenas um comando de tropas.As divisões entre os revolucionários terminaram por resultar em um desagradável episódio. Informado que Onofre Pires, um outro líder farrapo, fazia-lhe acusações, dizendo inclusive que era ladrão, Bento o desafiou para um duelo, no início de 1844. Onofre Pires foi ferido, e morreu dias depois devido a uma gangrena.Embora tenha iniciado as negociações de paz com Caxias, em agosto de 1844, Bento não iria concluí-las.
O clima de divisão entre os farrapos continuava, e ele foi afastado das negociações pelo grupo que se lhe opunha. Desligou-se, então, definitivamente da vida pública. Passou os dois anos seguintes em sua estância, no Cristal e, já doente, foi em 1847 para a casa de José Gomes de Vasconcelos Jardim, onde morreu, de pleurisia, em julho daquele ano.
Traços de seu perfil militar
Sobre seu perfil militar escreveria em Canguçu mais tarde uma testemunha ocular na Revolução Farroupilha, o Tenente Caldeira:
"Foi o primeiro general da república, tanto pela tática militar, como pelo prestígio na Província do Rio Grande. Era um cidadão muito atencioso, prudente e valente como os mais valente dos generais do Exército ( Rio-Grandense ).Era de boa estatura e bem feito de corpo. Tinha a cabeça pequena e redonda. Era a primeira espada da Província e tinha conhecimento da História Romana."
Noutra oportunidade o mesmo depoente o definiu melhor ainda:
"Bento Gonçalves era um homem prudente, não só frente ao inimigo e também no círculo de seus amigos. Em combate ele era o primeiro visado pelo inimigo. Sabia o momento de atacar e vencer, bem como o da retirada, quando julgada conveniente. Era um homem popular e apreciado. Era bem apessoado, mais alto do que baixo. Possuía ombros largos e corpo bem desembaraçado e flexível. Era bonito de rosto e simpático. Era uma das primeiras espadas do seu tempo. Desconhecia homem que lhe impusesse condições. Por tudo, o povo o seguia como se fora ele a alma dos rio-grandenses... Ele era símbolo de Liberdade, como João Antônio Silveira era o da Prudência.
Era um perfeito patriota! Possuía predicados desconhecidos pelo homem normal. Não era um homem de cultura comum. Era ilustrado e dava-se muito à leitura de obras de peso. "
Aqui ressalta a importância da cultura geral do líder e especialmente em História Romana. Esta, fonte e inspiração de sua cultura militar notável.
Morivalde Calvet em estudo sobre o líder farrapo apresentou os dados a seguir: Bento Gonçalves foi mestre consumado de todos os esportes campeiros. Sobre ele escreveu Garibaldi: "Bento Gonçalves cavalheiro errante do ciclo de Carlos Magno, irmão pela alma dos Olivérios e Rolandos, vigoroso, leal, ágil com eles. Era um verdadeiro centauro, manejando um cavalo como eu nunca vi ser manejado, senão por outro gaúcho rio-grandense, o general Neto."
Penso que esta circunstância por si só naquele tempo assegurara o status de ídolo popular a Bento Gonçalves.Sobre sua rusticidade atesta a sua alimentação diária em campanha, "churrasco e água pura" - frugalidade espartana.Francisco Sá Brito, ex-ministro farrapo em Memória da Guerra dos farrapos, concluída em 1875 em que pese reservas a Bento Gonçalves sobre ele escreveu:
"Devo aqui fazer justiça ao nobre caracter e suma bondade do chefe da Revolução. Se estudos regulares ornassem seu espírito para os quais tinha uma imensa agilidade, esta condição somada ao seu caracter enérgico tão generoso e vistas elevadas e perspicaz e ,teria feito dele um homem destinado para grandes, gloriosos e proveitosos feitos ."
É o testemunho de um jurista que estudou em Coimbra e São Paulo de 1826-32 e foi jornalista de o Echo Porto Alegrense e O Continentista e a quem Bento Gonçalves convocou de pois da vitória de 20 de setembro para dizer-lhe e a outros líderes civis:
"A força já fez o que lhe cumpria fazer. Agora compete aos senhores, como pessoas inteligentes, encaminhar a governança do país."
Foi ainda numa assembléia presidida por Sá Brito e secretariada pelo Major do Exército José Mariano de Mattos que Bento Gonçalves deu prova eloqüente de sua grandeza de espírito e autoridade moral.Tratava-se de uma manobra revanchista liderada por Pedro Boticário, como Juiz de Paz. Inicialmente foram relacionados 400 nomes de adversários, em maioria portugueses, que deveriam ser apontados. Entregue esta relação a uma comissão ela reduziu o número a 140 depois de três dias. Mais dois dias de estudo ficou reduzida a 40 nomes.
Ao Bento Gonçalves retornar de Rio Grande foi-lhe apresentada. Ele a leu calmamente. E tranqüilo e serenamente a atirou embaixo da mesa e disse a todos os presentes: " - Isto não tem lugar ! Passemos ao próximo assunto!." E ninguém voltou com o projeto revanchista.
Bento Gonçalves havia retornado de Rio Grande onde depois de obter a adesão de sua Câmara fez proclamação aos seus companheiros recomendando .
"Usai moderação depois do triunfo . O menor insulto às pessoas e bens de vossos inimigos será uma mancha em vossa glória."
O seu conceito nacional foi assim interpretado por Evaristo da Veiga na Aurora Fluminense, o que dificulta negar a sua condição de ídolo e herói popular do Rio Grande com projeção nacional alegada por alguns estudiosos.
"O Coronel Bento Gonçalves da Silva tem por seu valor adquirido um nome brasileiro (projeção nacional) : Valente defensor de sua Pátria contra o inimigo estrangeiro, por sua probidade, coragem e retidão conquistou entre os povos da fronteira do Rio Grande, onde mora, um tal conceito que por seu nome toda aquela população se move para o combate, certa de que marcha para a vitória e de que possuem um chefe leal e um brioso companheiro de armas."
Repare-se as expressões probidade, retidão reconhecidas pela imprensa da capital do Império.Depoimento dos que com ele conviveram referem a sua religiosidade equilibrada, sincera, sem fanatismo e a sua simplicidade no vestir quase sempre à paisana com uma jaqueta de brim. Nunca usando fardão com medalhas e condecorações que possuía. Quando era impositivo fardar-se envergava jaqueta de pano azul da Cavalaria ou verde da Infantaria, conforme tivesse que homenagear uma ou outra arma , e sem insígnias.
Segundo conclui de Fontoura em seu Diário , Bento Gonçalves durante marchas noturnas e acampamentos dava assistência cerrada a tropa, percorrendo todos os grupos e comunicando e convencendo seus soldados de seus projetos.Segundo se conclui do Tem Cel Oscar Wiedrsphan ao biografá-lo, assim escreveram sobre Bento Gonçalves seus superiores nas guerras contra Artigas:
"Muito desembaraçado e prestimoso para o serviço desta campanha (uruguai) em que é sumamente prático (Marquês de Souza, Comandante da Fronteira do Rio Grande). "Subordinado ativíssimo e valoroso" (Do Ajudante-de-Ordens do Marques de Alegrete). "Prestou relevantes serviços. É valente " (Conde da Figueira).
Compõe seu perfil militar e atesta seus serviços, decreto de 24 de janeiro de 1834 da Regência que lhe concedeu pensão de 1.200$000 réis anual.
"Atendendo aos relevantes serviços que tem prestado por longos anos nas trabalhosas campanhas do Sul, onde sacrificou toda sua fortuna, a maior parte dela despendida ao serviço da Pátria e, tomando em consideração que esse benemérito oficial, possuindo fazendas no Estado Oriental, as abandonou ao inimigo que corajosamente debelara, desprezando seus convites ( ofertas ) com brio e honra, o que lhe são próprios , portando-se em todo o tempo com a maior firmeza de caráter, amor e adesão à Independência do Império, à sua Constituição e ao Sr. D. Pedro II, tendo sempre, em maior conta, o serviço da Nação, do que a sua numerosa família, que com ele passara as maiores privações."
E reconhecendo a Regência que estes serviços tão importantes, até então não foram premiados ou compensados, foi-lhe concedida a pensão que foi aprovada pela Assembléia.
Quando Bento Gonçalves foi promovido general da República, em 12 de novembro de 1836, a justificativa da República Rio - Grandense escudou-se no seguinte argumento que compõe seu perfil militar:
"Por merecimento, valor, acrisolado patriotismo, perícia militar e relevantes serviços prestados é causa da liberdade rio-grandense."
Caldeira para comparar Bento e Netto diz que o primeiro sabia combinar as três armas e que Netto não, pois só sabia empregar Cavalaria.Domingos José de Almeida que conviveu intimamente com Bento Gonçalves assim traçou seu perfil por volta de 1850:
"Aprendeu apenas as primeiras letras. Sendo criado no exercício do campo, se fez insigne cavaleiro. Era de estatura ordinária e proporcionada, mas dotado de força e destro ( hábil ) no manejo de diversas armas. Era de fisionomia regular e simpática e muito popular. Cultivou com grande assiduidade seu grande talento no estudo da História. Principalmente sobre a vida dos grande homens, dos quais sempre trazia alguns casos em suas conversações particulares." Vê-se que foi um autodidata. Outro contemporâneo refere aos estudos de Bento Gonçalves de História Romana. Em correspondência ele referiu a personagens da História Romana e da Revolução Francesa.Aí estão algumas de suas inspirações.Almeida confirmou noutra oportunidade o que afirmara. Escreveu que Bento Gonçalves iniciou a vida como furriel de Auxiliares em 1811-1816 e, o mais importante:" Que era um homem incapaz de dirigir uma revolução porque seu coração de mulher (bondoso) estava sempre em luta com seu espírito forte e superior a todas as vicissitudes.Depois de afirmar que seu " coração bondoso predominava a maior parte das vezes sobre o seu espírito forte e resoluto" concluiu que as decisões de Bento Gonçalves" eram sempre rápidas e enérgicas", seja sobre influência da bondade ou de seu espírito forte e superior.
Fonte: www.resenet.com.br/bento_goncalves_perfil.htm

Questão escolha simples:
Bento Gonçalves da Silva iniciou sua carreira militar muito cedo, em 1818. Tendo como modelo o seu pai, Joaquim Gonçalves da Silva. Em qual dessas guerras começou sua atuação?
a) Guerra do Paraguai
b) Guerra Cisplatina
c) Guerra contra Artigas (Uruguai)
d) Revolução Farroupilha
e) Batalha de Passo do Rosário
Questão dissertativa
Mesmo preso, sua influência no movimento farroupilha continuou, pois foi eleito presidente da República Rio-Grandense. Quais das características de líder de Bento Gonçalves, com seu perfil militar, você considera mais importante?
Resposta esperada:
Prudente, simpático, honesto, fiel, corajoso, valente, popular e apreciado pelo povo.
Era ídolo e herói popular de seu tempo.

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