terça-feira, julho 25, 2006

Não se deixe intimidar - "keep your cool"

A partir de uma série de anedotas, Giuliani enfatiza a importância de não perder a cabeça diante das limitações por parte de adversários ou conjunturas críticas. Um verdadeiro líder deverá ser prudente, mas nunca covarde.
Conselho 1: Não se deixe intimidar ("keep your cool")
Meu pai era um excelente lutador de box. Seus problemas de vista impediram que ele se tornasse um campeão como queria, mas com seu metro e oitenta e três e seus setenta kg de peso, continuava sendo rápido e muito duro. Ele conhecia bem aquele esporte e falava dos combates com todo detalhe. Explicava-me estratégias e técnicas dos grandes lutadores, homens como Sugar Ray Robinson, Joe Luis, Willie Pep, Rocky Marciano e Jersey Joe Walcott.
No box, ele falava, a virtude mais importante é saber manter a calma. O que na língua inglesa é conhecido como "keep your cool, get the job done". Essa é a melhor lição que meu pai me ensinou, e ele a repetia incansavelmente... Conservar a calma, principalmente quando quem está perto de você está inquieto ou agitado. Ele repetia que a pessoa que consegue manter a calma pode ajudar os outros, controlar a situação, colocar as coisas em ordem. O lutador que perde a cabeça no primeiro golpe terminará no chão. Se conservar a calma, até mesmo quando recebe um golpe, poderá buscar a oportunidade de devolver o golpe.
Meu pai começou a lutar box quando eu era uma criança e continuou com suas aulas durante toda a minha adolescência. Eu era seguidor dos Yankees, mas morava a algumas quadras de Ebbets Field, no Brooklyn - território dos Dodgers - , e logo descobri que aquelas lições seriam de muita utilidade. Anos depois, meu pai me disse que se alguma vez eu fosse atacado, eu teria de imaginar que estava num ring, que mantivesse a calma e procurasse os pontos fracos do adversário. Uma das regras da liderança pelas quais me guio tem a ver com as primeiras lições, tem a ver com o primeiro encrenqueiro que enfrentei. Eu o chamarei Albert.
Quando eu era criança, minha família morava no primeiro andar de uma casa de dois andares e a família do meu tio William morava no outro. Willie era o irmão mais velho da minha mãe. Era meu padrinho - meu segundo nome é William - e nossas famílias estavam especialmente unidas porque ele estava casado com a irmã do meu pai, Olga. O tio Willie era agente da policia de Nova York e naqueles tempos os policiais tinham que sair de casa de uniforme. Era um homem muito alto e magro, tinha um aspecto muito sério com o uniforme e eu ficava impressionado. Muito tempo depois de ter se aposentado, ele sempre vestiu terno e gravata. Era um homem tranqüilo e reservado que passava horas lendo o jornal sob uma árvore na frente de casa.
Do lado de nossa casa morava outra família. O pai também era policial. Por alguma razão, meu tio não gostava dele. Talvez ele tivesse sido injusto ou grosseiro com ele. Ele tinha um filho que se chamava Albert, um menino gordo, dois anos mais velho que eu. Eu tinha uns cinco anos; ele sete. Albert se aproveitava de seu físico para intimidar as outras crianças. Ele os derrubava e sentava encima deles.
Meu tio lia Spring 3100, a revista dos policiais. Eu gostava muito de ler e ainda gosto. Eu folheava aquela revista do tio Willie, olhava as fotografias dos bandidos procurados, as novas tecnologias da polícia, mas não por muito tempo: meu tio sempre a tirava das minhas mãos. Um dia, ele estava sentado sozinho sob a árvore e minha mãe não estava por perto. Ele me chamou. Tinha um exemplar de Spring 3100 do lado. - Você quer a revista, certo?
- Sim - respondi.
- Quer ficar com ela?
- Sim!
- Deixe o Albert fora de combate e eu a darei para você.
O tio Willie me disse:
- Olha, teu pai tem te ensinado a lutar. Aplica um par de ganchos como os que teu pai te ensinou e o Albert começará a chorar como um neném. Ele é um gordo grosso e os encrenqueiros não são tão duros como parecem.
Para mim não estava tão claro, porque Albert pesava muito mais do que eu. Mas, o tio Willie mostrou-me a revista e me deixou dar uma olhada, antes de tirá-la e repetir que ela seria minha quando eu fizesse o Albert chorar. Pouco depois, meu tio estava sentado sob a árvore e eu vi o Albert fazendo suas maldades de sempre empurrando as crianças mais novas. Não lembro exatamente como começou. Eu o desafiei? Ele me pegou primeiro? Eu fui ajudar alguém? A única coisa que eu sei é que de repente eu estava brigando com ele. Comecei a bater no seu rosto, pam, pam, pam, como meu pai havia me ensinado, as pessoas começavam a se juntar em volta. O Albert não conseguiu me acertar nem uma vez ou, se ele conseguiu eu estava tão entusiasmado que não percebi. O nariz dele começou a sangrar, um olho estava ficando roxo e no fim ele começou a chorar e fugiu correndo para casa.
Não passou muito tempo antes que a mãe do Albert viesse na nossa casa arrastando seu filho. Ela procurou minha mãe e mostrou o nariz ensangüentado e o olho roxo do Albert. De acordo com ela, eu era um pequeno monstro. Minha mãe sentiu-se insultada, mas não por mim. "Por que você fez isso?", ela me perguntou. Eu olhava para o meu tio que estava a poucos metros dali, sob a árvore, e o olhei com a esperança de que ele se aproximasse e reconhecesse que era ele havia me envolvido naquilo. Mas ele continuou ali tranqüilo como se não soubesse o que estava acontecendo.
- O Albert estava mexendo com as crianças e eu decidi bater nele - respondi.
Minha mãe me deu um tapa, na frente daquelas pessoas. E falou:
- Peça desculpas agora. Hoje à noite eu vou contar para seu pai. Ele sim que vai bater em você.
- Não quero me desculpar - consegui falar- foi ele que começou.
Aquilo me valeu um segundo tapa. Ela tornou a exigir que eu me desculpasse.
Eu sei quando sou vencido. O Albert continuava chorando e eu falei de má vontade:
- Sinto muito Albert.
- Minha mãe nos obrigou a dar as mãos. Eu olhei para o meu tio e pensei: "Pelo menos ele podia me dar a famosa revista". Mas não disse nada. Subi lentamente para o meu quarto. Uns vinte minutos depois, a filha dele, minha prima Evangeline veio me ver. Ela trazia aquele exemplar da Spring 3100.
- Meu pai pediu para eu te dar isto - ela disse - porque você tem de ficar de castigo o dia todo.
Eu olhei pela janela. O tio Willie continuava sob a árvore. Ele não olhava para onde eu estava, mas o vi fazendo um gesto inconfundível com a cabeça, dando-me os parabéns por ter ficado de boca fechada sobre nosso acordo e por ter batido no Albert. Aquela noite meu pai chegou em casa como sempre e minha mãe contou o acontecido. Eu ouvia meus pais falando no quarto ao lado. Eu tinha batido no Albert; tinha feito ele chorar; ia ficar com má reputação, era preciso me endireitar. Minha mãe falou que era culpa dele por me ensinar a lutar boxe e agora ele teria que me dar uma surra daquelas que a gente não esquece. Meu pai foi me ver, mas antes de adotar a adequada expressão de desaprovo, ele falou:
- Você bateu no Albert? Meu Deus do céu! Ele é dois anos mais velho que você e pesa 11 kg a mais!
Minha mãe estava muito brava. Começou a falar que meu pai estava ajudando a me transformar num encrenqueiro. Mas naquela noite não me bateram.
Outras vezes minha mãe tentou que meu pai me desse uma boa surra, mas ele sempre evitou. Pouco depois do incidente com o Albert a gente se mudou para Garden City South, Long Island, para que eu pudesse crescer longe das influências que eles achavam que podiam me prejudicar. Quando minha mãe pedia para meu pai me castigar, ele me levava até o porão e fingia me bater. Minha mãe nunca soube, mas o que meu pai fazia realmente era me ensinar a lutar boxe. O dia da briga com o Albert, sua reação foi espontânea demais para poder fazer o papel de sempre. Eu contei como tinha acertado o Albert uma e outra vez e ele me disse:
- Ótimo! Isso é o que eu sempre te falo: "quando começar uma briga você tem que saber daquilo que você quer fazer". Mas ele sempre me lembrava: "nunca brigue com alguém menor do que você. Nunca se transforme num encrenqueiro".
Quando eu vejo um "encrenqueiro", um dominador, reajo de forma visceral. Quando alguém se acha superior e tenta impor sua opinião pela força, eu deixo claro que não tolero esse tipo de coação. Se um adversário em alguma negociação ameaça tornar público algo que acredita que vai me prejudicar, eu falo: "De acordo, vamos enfrente, vamos chamar uma coletiva de imprensa". Se alguém ameaça com abandonar para conseguir algo eu aceito sua demissão e pronto.
Fonte: Circuíto Liderança do site www.hsm.com.br

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